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Líder ou Líderes?


Claramente líderes. A história dos estudos da liderança iniciou-se e prolongou-se suportada na duplicidade líder-seguidor mas, atualmente, essa perspetiva passou a ser vista como ultrapassada. O livro chamado “Liderança Sustentável” explica bem que essa dualidade não tem qualquer lógica dada a crescente homogeneidade cultural dos membros de uma organização. A sustentabilidade a que se refere essa obra de Hargreaves e Fink (2007) aponta para uma harmoniosa preparação do futuro da liderança entendendo-se que as lideranças não são, nem devem ser, eternas e que devem ser preparadas pelos atuais líderes. É difícil fazê-lo uma vez que se entende ser da natureza humana gostar-se das posições que oferecem poder e notamos que todas as posições de liderança conferem esse desígnio. Como sabemos há-os de tal maneira apegados ao lugar que até têm de se fazer leis pra lhes limitar o mandato.

Não existe uma definição unanime dos conceitos, de resto cada vez mais usados, de líder ou de liderança mas tudo leva a crer que todos os que estão numa posição de influenciar outros podem ser chamados de líderes. Assim, a Escola está repleta deles duma forma dispersa. A diferença entre líder e liderança está diretamente ligada ao perfil de liderança e ao estilo de liderança, respetivamente. Ou seja, para se encontrar o líder tem de se perguntar: quem é o individuo? Para se conhecer a liderança tem de se perguntar: qual a sua postura? No início das observações ligadas a esta temática, a primeira pergunta tinha mais interesse do que a segunda mas, atualmente, os estudos debruçam-se de sobremaneira sobre a forma como o líder se comporta. Se são bons ou maus líderes, ou se exercem uma liderança eficaz, nunca o chegaremos a saber na realidade pois se nos preencherem as nossas motivações e desejos são bons e eficazes, caso contrário são maus e ineficazes mesmo que consigam atingir um qualquer objetivo pré-definido na organização.
 
E sabemos que ninguém consegue agradar à enorme diversidade de personalidades existente. O que interessa, na verdade, é, na linha da liderança sustentável, saber encontrar o que Vargas (2005) explana no título do seu livro, ou seja, encontrar a fórmula para o líder conseguir uma sucessão pacifica de forma a aceitar e preparar os outros proporcionando-lhes poder, responsabilidades, conhecimentos e partilha (aquilo a que comummente se chama empowerment ou, num sentido muito próximo, coaching), ou seja, encontrar a fórmula de se criarem mais líderes na organização. O delicioso título desse livro é: “A arte de tornar-se inútil”.
 Luís Ricardo (2013)

(AC) Avaliação do desempenho docente

Perfil do relator segundo a legislação portuguesa

Para designar a figura de um professor acompanhanhante com funções supervisivas surge na legislação um novo termo: “relator” (DR, nº 2/2010). Não se entende muito bem esta designação uma vez que nenhuma lei, ou outra qualquer orientação, se refere ao avaliado com a expressão correspondente de “relatado”.
Analisando-se esta primeira legislação que saíu sobre a “nova” avaliação de desempenho docente (ADD) sobressai, numa primeira análise, a diretriz geral de “centrar num órgão colegial a decisão sobre o desempenho do avaliado” (DR, nº 2/2010, p.2238). Para ser colegial todos os seus membros têm de possuir exatamente o mesmo poder deliberativo. Este órgão chama-se Júri de Avaliação (JA). Esta linha de orientação parece dar uma ideia que o relator poderá, de algum modo, não ter as competências necessárias para fazer uma avaliação justa, ou indicar que se pretende defender os interesses do avaliado atribuindo-se essa responsabilidade a vários membros, ou, ainda, indiciar que se pretende diluir um eventual peso negativo por outros que não somente o relator. Curiosamente o relator é “designado pelo coordenador de departamento curricular” (DR, nº 2/2010, artº13, nº 1) que deverá supervisionar as atividades do avaliado (DR, nº 2/2010, artº13, nº2). Considera este Decreto Regulamentar que “o (…) elemento essencial” (DR, nº 2/2010, artº13, nº2, artº17, nº3) na avaliação do docente é o seu relatório de auto avaliação, sendo, até, um dever apresentá-lo (DR, nº 2/2010, artº11º, nº2; artº 17º, nº2), parecendo sugerir ao JA que tenham uma atenção especial a este instrumento de avaliação. No entanto, e curiosamente, na legislação seguinte sobe a ADD, Despacho nº 14420/2010, refere-se a este documento (relatório de auto avaliação) como “um elemento essencial” (Despacho, nº 14420/2010, Anexo II, p.47135) retirando-llhe assim o estatuto sobre enaltecido de “o elemento essencial”.
Neste modelo de avaliação (DR, nº 2/2010) sugere-se que o avaliado deve ser acompanhado e supervisionado na sua prática pedagógica pelo relator (DR, nº 2/2010, artº 14º, nº 1), não se entendendo muito bem a forma como o deverá fazer pois as estruturas das escolas não estão ainda preparadas para se implementarem essas recomendações duma forma sistemática e contínua uma vez que não existem, para já, recursos nem meios, nomeadamente horários compatíveis, para se fazer esse acompanhamento.
Em cada escola, ou agrupamento de escolas, deve constituir-se uma “comissão de coordenação da avaliação do desempenho” (CCAD) que regulará todo o processo da ADD. É composta por 4 membros vindos do Conselho Pedagógico (CP) onde se inclui o seu presidente (que também é o diretor da Escola) sendo que os restantes 3 membros são eleitos por este órgão (CP), portanto sem nenhuma especificidade académica exigida ou outra qualquer formação particular para exercer o cargo de avaliador. Seguidamente constitui-se o órgão colegial JA, para cada avaliado, composto pelos elementos da CCAD e pelo respetivo relator. Como já foi referido, quem ratifica a classificação proposta pelo relator é o JA. Nada se diz sobre quem preside a este JA admitindo-se que possa ser o presidente da CCAD, ou seja, o presidente do CP, ou seja, o diretor da escola, mas, não necessariamente.
Nesta procura do perfil do relator, sugere-se, sem qualquer obrigatoriedade, que o relator pertença ao grupo disciplinar do avaliado, tenha habilitações iguais ou superiores ao avaliado e possua formação especializada em avaliação de desempenho (DR, nº 2/2010, artº 13º, nº 3). Ameslsvoot et al (2009) apontam nas suas recomendações “pares mais qualificados“ (idem, p. 3) que os avaliados para fazer esse papel supervisivo ou que os “avaliadores responsáveis pela avaliação para progressão na carreira deverão ser altamente qualificados“ (idem, p. 8). Não vislumbrei na legislação, ou nas recomendações de Ameslsvoot et al (2009), qualquer referência à separação das áreas cientifica e pedagógica no perfil académico do relator o que me parece constituir uma lacuna reflexiva, pois na principal função do professor, que é ensinar (tantas vezes repetido pelos nossos governantes), estas duas componentes estão permanentemente em jogo. E, como sabemos, cada vez mais há professores que deixaram a área cientifica para trás, pelos mais diversos motivos, atualizando-se em áreas pedagógicas nos inúmeros e novos cursos de mestrado e doutoramente que agora as universidades propõem.
Após a comunicação por escrito ao avaliado da classificação (DR, nº 2/2010, artº 18º, nº6),  o JA reune e o relator propoe essa classificação, suportada por uma “ficha de avaliação global”  (Despacho, nº 14420/2010), sendo submetida aos restantes membros para ser votada e aprovada por maioria simples (DR, nº 2/2010, artº13, nº5).
Resumindo este processo de avaliação:
1.      O coordenador de departamento designa um relator que supervisionará o avaliado durante o processo de avaliação (atenção às ações processuais que a supervisão pedagógica acarreta, pois se o avaliado não cumprir com um determinado procedimento por desconhecimento as culpas deverão, inequivocamente, ser imputadas ao relator);
2.      O relator, suportado pelo relatório de auto avaliação e pela ficha de avaliação global,  informa o avaliado, por escrito, sobre a classificação que irá propor ao JA (não necessita de confrontá-lo nem interrogá-lo, somente informá-lo da classificação – parece-me, no entanto, que a classificação deverá ser acordada em contexto de uma reunião informal);
3.      O avaliado tem 5 dias para poder solicitar uma entrevista se discordar da classificação proposta devendo expor as suas razões;
4.      O JA reúne e vota por maioria simples a classificação a ratificar (note-se: a ratificar) devendo-se ter em conta, se existirem, as contestações do avaliado vindas da entrevista (de notar que o relator não tem de se sentir num interrogatório nem numa outra situação inquisitória nesta assembleia, pois tem exatamente o mesmo poder deliberativo que os outros membros – quanto muito poderá justificar, por uma questão ética, a classificação que propõe).
Entende-se com a análise das leis referidas, e apesar de outras orientações contrárias, que o perfil profissional do relator poderá ser um qualquer professor desde que pertença ao grupo disciplinar do avaliado não existindo a obrigatoriedade de cumprir com qualquer outro requisito. A exigência do avaliador e avaliado pertencerem ao mesmo grupo diciplinar não é de uma interpertação pacifica. Podemos dizer então que para se ser avaliador de professores numa escola é necessário ser-se professor nessa escola. Curiosamente, a legislação não obriga que seja o diretor da escola a nomear esse relator pois basta a designação pelo coordenador de departamento a que pertence.
Este é assim o perfil teórico do relator que tem a função de supervisionar o avaliado, propor a classificação da sua ADD ao JA e participar neste órgão através dos seu voto na classificação final do avaliado.
 
Bibliografia e legislação consultada:
·         Ameslsvoot, van G., Manzi, J., Matthews, P., Roserveare, D., & Santiago, P. (2009). Avaliação de Professores em Portugal – Avaliação e Conclusões. OCDE (estudo).
·         Decreto Regulamentar nº 2/2010, de 23 de junho – regulamenta o processo de avaliação do desempenho do pessoal docente estabelecido no Estatuto da Carreira dos Educadores de Infância e dos Professores dos Ensinos Básico e Secundário.
·         Despacho nº 14420/2010, de 15 de setembro – apresenta as regras de calendarização do procedimento, as regras do relatório de auto-avaliação e aprova as fichas de avaliação.
·         Despacho nº 16034/2010, de 22 de outubro – define os padrões de desempenho.


 
Luís Ricardo (nov-2011)

(AC) A importância do conhecimento ser aplicado por quem o produziu

Uma reflexão sobre a contribuição da Investigação Ação para a sustentabilidade de uma escola eficaz salientando-se as vantagens que existem na proximidade do professor/investigador ao objeto de estudo

Muitas das soluções propostas por vários autores são apresentadas através de modelos em que “os professores são vistos como simples consumidores” (Zeichner, 1993, p. 17). Este autor alerta ainda para se “ter em atenção as investigações feitas por terceiros” (idem, p. 27) no sentido de lhes atribuir alguma desconfiança “Caso contrário, estará se repetindo o mesmo erro do passado, ao se deixar que outros, as classes dirigentes, façam as leituras do mundo e as transmitam como sendo verdade” (Grabauska & Bastos, 1998, p.4).
As soluções estandardizadas como forma de indicação para o exercício da profissão docente poderão, quando muito, orientar-nos para um determinado caminho mas muito dificilmente nos guiarão até a uma solução satisfatória. Contrariando esta tendência a Investigação Ação (I-A) permite uma maior eficiência no trabalho pedagógico através da diversificação de estudos e reformulação de práticas. Tendo em conta também a diversidade dos sujeitos com que o docente se confronta, a I-A, num contínuo processo de melhoramento da prática, pode levar o profissional a um maior envolvimento podendo, naturalmente, resultar em mais motivação no trabalho. O conhecimento produzido pelos próprios profissionais (embora se reconheça que o principal objetivo da I-A é a melhoria da prática e não a produção de conhecimento) e a “progressiva aceitação desse reconhecimento no âmbito do sistema educativo em geral seria certamente vantajosa para a afirmação da profissionalidade docente” (Sousa, 2010, p. 35) refletindo-se numa maior satisfação no trabalho e consequentemente num melhor clima e eficácia escolar. Também Zeichener e Noffke (2001, cit. Freire, 2007) destacam inequivocamente a importância que a produção de conhecimento através da prática possui. Um outro apontamento apresentado por Ludke e Cruz (2005, cit. Sousa, 2010, p. 46) que poderá incentivar e catapultar a I-A como uma prática essencial junto dos professores:

“temos de reconhecer a falta de produtividade, ou mesmo de alcance de pesquisa universitária junto à escola básica e a evidência de que os professores dessa escola estão mais habilitados para perceber melhor os problemas que afligem esse nível de ensino”.

A I-A vista como um meio eficaz na sustentabilidade da qualidade das escolas produz assim

“sentimentos positivos face ao ensino e ao ser-se professor (…) sentimento da importância social do trabalho nas escolas, a crença (…) nas suas capacidades intelectuais e na importância do seu desenvolvimento para melhorar o desempenho profissional, o reforço das relações afectivas entre colegas” (Máximo-Esteve, 2008, p. 71).

Ainda o texto de Kelchtermans (2009, cit. Gonçalves, 2010, p.21) que salienta a importância das constantes reflexões dos professores:

“(…) os professores tendem a falar espontaneamente do seu trabalho. De facto fazem-no sempre: nas salas de professores, durante os cursos, (…) em festas familiares (…) Sempre que os professores se encontram contam histórias”.

A respeito de “reflexão” e de “professor reflexivo”, palavras-chave da I-A, Zeichner (1993) alerta para o uso vulgarizado dos termos. Critica a forma como se usa o conceito de professor reflexivo nas reformas e sugere que os professores são encaminhados a imitarem as práticas vindas de investigações a que eles não tiveram uma contribuição negligenciando-se os conhecimentos vindos das suas práticas. Acrescenta que “Um exemplo desta tendência é a avaliação dos professores, segundo modelos externos alegadamente baseados na investigação” (idem, p. 22). Considera que os termos surgiram como uma reação ao facto de se considerarem os professores como funcionários, cumprindo ordens, e não como agentes ativos na formulação das soluções para os problemas de ensino. Também Teodoro (2006) destaca esta tendência. Contrariando este pendor, Zeichner (1993, p.16), refere que “os professores são profissionais que devem desempenhar um papel activo na formulação tantos dos propósitos e objectivos do seu trabalho, como dos meios para os atingir” (idem, p. 16). E continuando diz mesmo que

“Reflexão também significa o reconhecimento de que a produção de conhecimento sobre o que é um ensino de qualidade não é propriedade exclusiva das universidades e centros de investigação e desenvolvimento e de que os professores têm teorias que podem contribuir para uma base codificada de conhecimentos do ensino (…) é bastante claro que a melhoria das escolas não pode depender só dos conhecimentos produzidos nas universidades” (ibidem).

Concluo este apontamento, sobre as dúvidas que normalmente se levantam à excessiva proximidade do professor/investigador com o objeto de estudo, apresentando uma exposição de Hameline (1991): alguns professores passam a teses de doutoramento as suas reflexões sistemáticas. A metáfora conhecida por “Janela de Johari” proposta por Luft e Hingham (cit. Carmo & Ferreira, 1998, p.110) descreve que o acesso à “área secreta” fica facilitada enquanto a observação da “área cega” fica dificultada sugerindo que existem vantagens e desvantagens nessa proximidade. Mas, fazendo-se a contabilidade dessa vizinhança em relação à distância, o saldo parece-me francamente positivo para o lado do professor/investigador.


Referências bibliográficas
Carmo, H., & Ferreira, M.  (1998). Metodologia da Investigação - Guia para Auto-aprendizagem. Lisboa: Universidade Aberta

  Freire, A. M. (2007). Educação para a Sustentabilidade: Implicações para o Currículo Escolar e para a Formação de Professores. Lisboa: Universidade de Lisboa, Centro de Investigação em Investigação, Pesquisa em Educação Ambiental, v.2, nº1, pp-141-154

·      Gonçalves, J. (2010). Supervisão e Avaliação: construção de registos e relatórios. Aveiro: Universidade de Aveiro

·      Grabauska, C. J., & Bastos, F. P. (1998). Investigação-acção: possibilidade crítica e emancipatória na prática educativa. Revista Electrónica de Investigación Curricular y Educativa, v. 1, n. 2

·      Hameline, D. (1991). “O educador e a acção sensata” in Nóvoa, A. (org.) (1991). Profissão Professores. Porto: Porto Editora, pp.32-61

·      Máximo-Esteves, L. (2008). Visão Panorâmica da Investigação-Acção. Porto: Porto Editora

·      Sousa, F. (2010). A Investigação enquanto prática de deliberação curricular: o caso do projecto ICR. Ponta Delgada: Universidade dos Açores, Revista Interacções, nº 14, pp.32-56

·      Teodoro, A. (2006). Professores para quê? Mudanças e desafios na Profissão docente. Porto, Profedições

·      Zeichener, K. (1993). A formação reflexiva de professores: ideias e práticas. Lisboa: Educa

Luís F. F. Ricardo

(AC) A Investigação-Ação: Natureza e Validade

Recensão do artigo “A Investigação-Acção: Natureza e Validade” de António Simões publicado na Revista Portuguesa de Pedagogia, Ano XXIV, 1990, pp.39-51

1- Objecto Central

Este pequeno mas objetivo trabalho do Professor Doutor António Simões é consubstanciado em várias obras (24 mais precisamente) cujos autores são sobejamente conhecidos como, por exemplo, J. Ardoino e A. Esteves. Estas razões parecem-me, só por si, suficientes para o considerar um excelente contributo no sentido de se entenderem as inúmeras problemáticas da Investigação-Ação (I-A) já que permite ao leitor identificar a sua origem, a sua definição, os seus sentidos, as suas características, os seus objetivos, as suas fases/etapas e permite ainda reflexões sobre a cientificidade das investigações que estão associadas a todo o processo uma vez que desenvolve assuntos sobre as dúvidas que suscitam no que respeita à sua validade e sua legitimação.



2- Organização e estrutura

O texto em estudo apresenta uma introdução onde é destacado a relação entre os dois paradigmas predominantes (qualitativo e quantitativo) usados na investigação educacional. Seguidamente debruça-se sobre a “Natureza da Investigação-acção” (p.40) fazendo uma alusão à origem da I-A, aliás lugar comum de quem escreve sobre este tema, e sobre a “expressão polissémica” (p.40) do termo procurando atribuir a cada conceito expresso uma estratégia de implementação da I-A. Dedica, no seguimento do título do artigo, um capítulo à “Validade da I-A” (p.43) onde destaca o foco do investigador na ação em detrimento da “replicação e generalização dos resultados” (p.43) debruçando-se sobre as ameaças à validade interna e validade externa da investigação. Na conclusão pretende ressaltar as notas positivas da I-A ao dizer que existem maneiras de ultrapassar os problemas de validade, não apontando, no entanto, nenhuma medida (provavelmente devido à limitação do espaço para a elaboração do artigo).



3- Linha orientadora de desenvolvimento

O autor começa por realçar o conflito existente entre os dois “paradigmas” (p.39) ou “modelos” (p.40) aplicados na investigação educacional ligando o quantitativo a filosofias e epistemologias lógico-positivistas e o qualitativo às naturalistas-fenomelogistas concluindo este raciocínio dizendo que atualmente essa guerra já não existe mas sim o contrário, ou seja, uma complementaridade pacífica entre eles. Simões assume essa pacificação apontando a I-A como prova desse vínculo.

A paternidade do termo também é aqui, à semelhança de muitos outros autores[1], atribuída a Kurt Lewin mas destaca a evolução do conceito apresentando quatro sentidos consubstanciado em Dubost (1983): “uma estratégia de investigação (…) uma estratégia de acção (…) uma estratégia do poder (…) uma estratégia de análise social” (p.41).

Numa postura de clarificação sobre eventuais dúvidas da cientificidade da investigação usada na I-A e baseado em Ardoino (1983) alerta que se deve separar “questionamento e investigação” (p.41) e “pesquisa científica e solicitação praxeológica” (p.41). Neste seguimento, a comparação com outros processos de gerar conhecimento para aplicação na prática costuma ser visto por muitos como um “escândalo epistemológico” (Ardoino, 1983:22, cit. Simões, 1990:42).

Depois destas posições, com propósitos esclarecedores, Simões continua apresentando duas características da I-A (a situacional e a auto-avaliativa) e uma definição de I-A, em forma de delimitação do termo permitindo entender a linha de raciocínio do texto em estudo, que é a seguinte: “produção de conhecimentos ligada à modificação de uma realidade social dada, com a participação activa dos interessados” (Ledoux, 1983: 623, cit. Simões, 1990:42). Mais à frente complementa esta definição dizendo que é uma “(…) pesquisa, por parte dos práticos, da sua própria prática” (Kemmis, 1988:42, cit. Simões, 1990:44)[2].

Resume ainda as fases do processo cíclico (ou, como muitos preferem, processo em espiral) da I-A em três, constituindo, deste modo, o número mais reduzido de etapas atribuídas por outros autores aos procedimentos, que são: o “ planeamento, a acção, a avaliação, à qual se segue, de novo, o planeamento, etc.” (p.43).

Como objetivos da I-A aponta também três: “produzir novos conhecimentos, modificar a realidade e transformar os actores” (p.43) ou, como refere mais à frente, “conhecer, agir e formar” (p. 43).



4- Outros contributos recebidos e transmitidos – importância para a I-A

4.1-         Questões éticas da I-A

Não vislumbrei no texto em estudo qualquer referência clara aos problemas éticos com que se depara um processo de I-A. No entanto, Simões, embora não se refira explicitamente a estas questões apresenta matéria suficiente que permite obter algumas reflexões nesta área.

Considera-se então a I-A como um conjunto de procedimentos que surgem para dar resposta a um problema social, real e específico vivido/sentido pelo investigador/profissional (ou pelos investigadores/profissionais) colocando-se em ação os resultados da investigação no sentido de melhorar a sua prática num processo cíclico, refletivo e critico onde o grupo alvo tem de assumir a aceitação das mudanças e envolver-se ativamente em todo o processo[3]. Assim, para se considerar um processo de I-A todos os agentes envolvidos têm de ter conhecimento dos objetivos a que se propõem e participarem na resolução/mudança do problema identificado. Parece-me então que este será um dos primeiros passos que o investigador terá de fazer: procurar a aceitação e envolvência do grupo alvo. Podem, no entanto, surgir aqui, dependendo também do objeto de estudo, questões éticas que se prendem, por exemplo, com melindres de caráter muito particular de um ou mais sujeitos não sendo possível a divulgação da profundidade do problema aos outros sujeitos em estudo comprometendo, deste modo, o sucesso de todo o decurso. Será este, provavelmente, o grande constrangimento ético que pode impedir o início, ou um novo ciclo, da I-A.

Neste seguimento, outras questões semelhantes se podem levantar que têm a ver, por exemplo, (a) com a interferência dos superiores hierárquicos na investigação já que devem ser informados dos objetivos do processo, (b) com os riscos/benefícios/proteção a que os agentes envolvidos deverão estar sujeitos caso as conclusões tenham de ser divulgadas, (c) com a (im)possibilidade de se poder fazer investigação sem informar o grupo alvo (embora neste caso se percam as características de uma I-A na sua essência) e (d) com a escolha da informação que deve ser recolhida/divulgada. Todas estas questões levantadas parecem ter uma resposta algo contraditória dada pelo autor que me sugeriu estas reflexões de caráter ético: “A única maneira segura de evitar a violação de princípios da ética profissional é evitar simultaneamente fazer pesquisa social”.[4]

Ainda um outro apontamento sobre este assunto: será que o profissional está preparado no que concerne ao domínio dos métodos/técnicas de investigação para se abalançar num projeto de I-A fazendo com que os resultados sejam aceites pela restante comunidade? Como se obtêm essas acreditações?



4.2-         Posições e dilemas do investigador

Simões chama a atenção para a complexidade que existe em torno de um processo de I-A tendo em conta os três objetivos já apontados (“conhecer, agir e formar” – p.43). Refere, por exemplo, que pelo facto de existir um investigador/prático, ou seja, um investigador/profissional, ter de se posicionar como um observador participante, podem surgir dilemas entre as duas partes mentais/filosóficas envolvidas simultaneamente: a investigação e a ação. Justifica-se dizendo que a parte prática apenas se preocupa com a ação e a parte investigadora com a validade da investigação no que respeita à replicação e generalização dos resultados.

Refere a este propósito a distância que se pede ao investigador em estudos de outra ordem de grandeza, diferentes da I-A, devido a conhecerem-se os perigos que podem surgir se existir demasiada proximidade entre o investigador e o objeto de estudo. Como colmatar este embaraço? Simões sugere uma defesa através da chamada “I-A emancipatória, em que toda a responsabilidade pelo processo (acção e reflexão) é atribuída aos práticos” (p. 44), não havendo lugar neste tipo de investigação a investigadores externos fora da envolvência com o problema. Portanto, deduz-se claramente que este pressuposto/exigência faz parte das características intrínsecas do método.

Neste seguimento, o autor salienta muito superficialmente as vantagens e as desvantagens, sem referir nenhuma, que podem existir com a demasiada proximidade do investigador ao objeto de estudo. Sabemos, no entanto, que as vantagens se prendem com o acesso à “área secreta” pois fica facilitado, enquanto as desvantagens se atribuem à observação da “área cega” que fica dificultada[5]. Mas, atendendo às características de um processo de I-A e para ser considerado como tal, tem, forçosamente, de ser o profissional a envolver-se num problema concreto identificado na sua prática e investigar sobre ele no sentido de a melhorar. Logo, parece-me que o investigador terá de estar sensibilizado e ter conhecimento destes alertas provenientes dos mais diversos quadrantes/autores e ficar atento a eventuais cedências que possam enviesar os resultados devido a essa proximidade procurando dar ênfase às muitas vantagens que reconhecidamente são assumidas e enfatizadas pelos mesmos que levantam estas questões.



4.3-         Qualidade da I-A e sua legitimação

Simões alerta que a I-A não é um processo fácil e que não deve ser confundido como um novo paradigma de investigação concorrente dos dois conhecidos. Prefere dizer que é uma “alternativa metodológica, no campo das ciências do homem e da sociedade” (Ardoino, 1983:23, cit. Simões, 1990:48).

O autor em estudo refere que a I-A, à semelhança do paradigma qualitativo, tem problemas de legitimação e de validade na investigação. Sem se debruçar na explicação destes atributos ao não definir qualquer critério, sabe-se, no entanto, que a validade é dividida em duas: a interna e a externa. A primeira, também conhecida como credibilidade, tem a ver com a correspondente coerência entre as conclusões do estudo e a realidade (pode verificar-se através da replicação, ou seja, através da triangulação de investigadores e/ou triangulação de métodos e/ou técnicas). A segunda está diretamente ligada à generalização, ou à transferibilidade, dos resultados (ou seja, à possibilidade de a partir das conclusões de um estudo se poderem aplicar em outro grupo). Alguns autores[6] procuram aligeirar estas desconfianças e dizem que as validades externas e internas asseguram-se através da triangulação de dados ou de estratégias múltiplas de pesquisas no terreno. A fiabilidade do estudo garante-se conseguindo-se obter os mesmos resultados através da replicação onde a sua grande ameaça é a maturação, ou seja, a mudança de comportamentos dos sujeitos em estudo[7]. Parece-me assim que uma forma satisfatória de assegurar a validade interna é através da verificação da fiabilidade.

Surge ainda a fidelidade, ou precisão, que me parece poder significar o mesmo que fiabilidade e, ainda, a consistência que terá a ver com a possibilidade de outros investigadores poderem acompanhar o estudo, portanto muito próximo da fidelidade[8].

Simões, sem negar a possibilidade de poder existir validade interna e externa num processo de I-A, alerta para as dificuldades de uma pretensão dessas ao afirmar que, para se conseguir vislumbrar essa legitimação, teria de se descrever o fenómeno “(…) em termos de características típicas (…) variáveis participantes, lugares, quadros teóricos, estratégias de investigação” (p. 47), ou seja, teriam de se encontrar problemas idênticos em outras práticas semelhantes. Conclui afirmando que existem “maneiras, mais ou menos eficazes, de lhe fazer frente” (p. 48), sem no entanto sugerir nenhuma em concreto, mas, certamente, baseado nos pressupostos, pouco plausíveis na minha opinião, que apresentei na penúltima citação.



As minhas conclusões

O texto em estudo aponta claramente para o cuidado que se deve ter no caso de se pretender atribuir os desígnios de validade interna e/ou validade externa à I-A.

A maturação será a grande ameaça à primeira validade já que na replicação do estudo os comportamentos dos sujeitos serão, muito provavelmente, diferentes não me parecendo ser coerente nem funcional a possibilidade da replicação do estudo através de outro investigador/profissional ou mesmo através do mesmo investigador/profissional pois os sujeitos já não seriam os “mesmos” uma vez que teriam aprendido algo na primeira investigação fazendo com que os resultados fossem provavelmente diferentes. Uma das soluções para colmatar este constrangimento seria, talvez, a replicação do estudo com o mesmo investigador/profissional mas através da triangulação de métodos/técnicas.

No que respeita à validade externa, a aplicação dos resultados de uma investigação muito particular, obtidos num contexto muito específico relacionados com uma prática de trabalho de um profissional/investigador, numa ação em outro contexto também muito específico e com outros agentes, seria, muito provavelmente, outro grande fracasso. Mas ressalvo, mais uma vez, à semelhança do que sugere Simões, que tudo dependerá da complexidade do objeto de estudo, da postura epistemológica do investigador perante esse objeto e da recetividade do grupo alvo. Como diz o autor em estudo teriam de se escolher construtos de investigação sem serem específicos de um grupo de sujeitos e sem estarem integrados num determinado contexto particular.

Afigura-se ainda outro grande problema com a questão da validade externa: a I-A tem uma característica única relativamente a outras alternativas metodológicas que é a continuidade do processo numa perspetiva cíclica/espiral. Deste modo, se quiséssemos generalizar os resultados, pergunta-se: que conhecimentos/resultados, provenientes de uma das (várias) investigações, integrada na I-A, deveríamos aplicar num outro grupo alvo? Os do primeiro ciclo, os do segundo ciclo, ou os de outro número de investigação? E o outro grupo alvo estaria no mesmo estádio problemático que o grupo alvo de origem? Ora, a implementação duma ação baseada em conhecimentos provenientes de uma das investigações que não fosse suportada pelo grupo alvo que deu origem a esses conhecimentos já não teria as caraterísticas para ser considerada uma I-A. Sobressairiam assim os problemas éticos e de eficácia pois o grupo alvo de destino não tinha participado na investigação dando azo, provavelmente, a desmotivações e a repulsas no que concerne à aceitação da ação.



Em conclusão final parece-me que, tendo em conta os critérios de validade aqui apresentados, podemos assumir, na sua generalidade, que a I-A não tem validade externa e não se vislumbram meios eficazes para provar a sua validade interna. Esta proposta reflexiva não significa no entanto que esta alternativa metodológica não emerja como um grande e útil recurso para o profissional/investigador melhorar a sua prática nem me parece, sequer, que as dúvidas sobre a validade constituam a preocupação central da I-A. Preferencialmente dever-se-á exigir que o profissional/investigador possua algum status académico para iniciar um processo desta complexidade não se devendo também descurar a ética que toda a investigação no terreno requer. Serão estas, porventura, as maiores ameaças. Provavelmente só após a verificação e acreditação destas premissas por parte da comunidade científica/académica se poderá validar um processo de I-A, pois a qualidade de uma investigação dependerá sobretudo da ação humana, necessitando-se, por este motivo, de “investigadores treinados, conscientes mas também de investigadores que conheçam as “regras do jogo”[9] fazendo-se com que a validade seja vista através da confiabilidade[10].



Bibliografia de apoio à recensão

·         Bell, J. (1997). Como Realizar um Projecto de Investigação. Lisboa: Gradiva

·         Burgess, R. G. (2001). A Pesquisa do Terreno. Oeiras: Celta Editora

·         Caetano, A. P. (2003). Para uma conceptualização da reflexão na investigação-acção. Coimbra: Revista Portuguesa de Pedagogia, vol 37, nº 3, pp. 113-133

·         Carmo, H., & Ferreira, M., (1998). Metodologia da Investigação - Guia para Auto-aprendizagem. Lisboa: Universidade Aberta

·         Coutinho, C. P. (2008). A qualidade da investigação educativa de natureza qualitativa: questões relativas à fidelidade e validade. Educação Unisinos 12 (1): pp. 5-15, janeiro/abril

·         Coutinho, C. P., Sousa, A., Dias, A., Bessa, F. Ferreira, M., & Vieira, S. (2009). Investigação-Acção: Metodologia preferencial nas práticas educativas. Braga: Revista Psicologia, Educação e Cultura, vol. XII, nº 2, pp. 355-380

·         Grabauska, C. J., & Bastos, F. P. (1998). Investigação-acção: possibilidade crítica e emancipatória na prática educativa. Revista Electrónica de Investigación Curricular y Educativa, v. 1, n. 2

·         Lopes, A. (2003). Estudo Acompanhado: Espaço de Inovação e Reconstrução – Utopia ou Realidade. Porto: Universidade do Porto, (dissert. de mestrado policop)

·         Máximo-Esteves, L. (2008). Visão Panorâmica da Investigação-Acção. Porto: Porto Editora

·         Tripp, D. (2005). Pesquisa-ação: uma introdução metodológica. São Paulo: Revista Educação e Pesquisa, v. 31, n. 3, set./dez. p. 443-466


Luis Ricardo (2011)



[1] Ao contrário de Tripp (2005) que refere terem existido antes de Kurt Lewin trabalhos nesta área datados de 1913 afirmando que se conhece ainda a obra de Buckingham em 1926 chamada “Research for teachers” que evocam procedimentos semelhantes aos preconizados pela I-A moderna. “Assim sendo, é pouco provável que algum dia venhamos a saber quando ou onde teve origem esse método, simplesmente porque as pessoas sempre investigaram a própria prática com a finalidade de melhorá-la” (idem:445).
[2] De notar que aqui, à semelhança de muitos autores (sobretudo brasileiros), pesquisa e investigação têm o mesmo significado.
[3] Caetano (2003), Coutinho (2008), Coutinho et al. (2009), Grabauska (1998), Máximo-Esteves (2008), Tripp (2003).
[4] Bronfenbrenner (1952:453, cit. Burgess, 2001:226).
[5] Este modelo é conhecido pela “Janela de Johari” proposto por Luft e Hingham (ver Carmo & Ferreira, 1998).
[6] Nomeadamente Elliot e Adelman (1976, cit. Lopes, 2003).
[7] Bell (1997) faz somente uma diferenciação entre validade e fiabilidade ao afirmar que um método de investigação pode ter fiabilidade e não ter validade mas o contrário não se verifica. Para esta autora, à semelhança de outros, fiabilidade tem a ver com a replicação do estudo e validade, sem referir que é a interna, com a correspondência entre as respostas e o procurado. Procura-se que as conclusões sejam coerentes com a investigação, ou seja, verifica-se se o estudo “mede ou descreve o que supostamente deve medir ou descrever” (idem:88). De salientar que esta autora, à semelhança de Máximo-Esteves (2008), não faz qualquer referência às diferenças entre validade interna e validade externa. Carmo e Ferreira (1998) acrescentam que a validade interna pode ser assegurada utilizando o recurso da triangulação e que “a fiabilidade pode ser garantida sobretudo através de uma descrição pormenorizada e rigorosa da forma como o estudo foi realizado” (idem: 218).
[8] Relativamente a estes conceitos, a outros relacionados e à correspondência entre validade interna/credibilidade e validade externa/transferibilidade, ver Coutinho (2008).
[9] Coutinho (2008:13).
[10] Lincoln e Guba (1985, cit. Máximo-Esteves, 2008) também apontavam para uma equivalência semelhante ao substituírem “a noção de validade pela de “veracidade”” (idem:114).

(AC) Validade da investigação ação

Uma reflexão sobre a delimitação dos conceitos relacionados


A validade de uma investigação costuma ser normalmente dividida em duas: a interna e a externa. A primeira, também chamada credibilidade (Coutinho, 2008), tem a ver com a correspondente coerência entre as conclusões do estudo e a realidade. Pode verificar-se através da replicação, ou seja, através da triangulação de investigadores e/ou triangulação de métodos e/ou técnicas. A segunda está diretamente ligada à generalização, ou à transferibilidade (idem), dos resultados, ou seja, à possibilidade de a partir das conclusões de um estudo se poderem aplicar em outro grupo alvo. Alguns autores, nomeadamente Elliot & Adelman (1976, cit. Lopes, 2003), procuram aligeirar estas desconfianças e dizem que as validades externas e internas asseguram-se através da triangulação de dados ou de estratégias múltiplas de pesquisas no terreno. A fiabilidade do estudo garante-se conseguindo-se obter os mesmos resultados através da replicação onde a sua grande ameaça é a maturação, ou seja, a mudança de comportamentos dos sujeitos em estudo. Parece-me então que uma forma satisfatória de assegurar a validade interna é através da verificação da fiabilidade. Surge ainda a fidelidade, ou precisão, que me parece poder significar o mesmo que fiabilidade e, ainda, a consistência que terá a ver com a possibilidade de outros investigadores poderem acompanhar o estudo, portanto muito próximo da fidelidade (Coutinho, 2008). Gostaria de realçar que muitos destes termos são usados pelos outros autores da bibliografia deste texto mas sem estarem tão carregados do significado que aqui apresento.

Bell (1997) faz somente uma diferenciação entre validade e fiabilidade ao afirmar que um método de investigação pode ter fiabilidade e não ter validade mas o contrário não se verifica. Para esta autora, à semelhança de outros, fiabilidade tem a ver com a replicação do estudo e validade, sem referir que é a interna, com a correspondência entre as respostas e o procurado. Procura-se que as conclusões sejam coerentes com a investigação, ou seja, verifica-se se o estudo “mede ou descreve o que supostamente deve medir ou descrever” (idem:88). De salientar que esta autora, à semelhança de Máximo-Esteves (2008), não faz qualquer referência às diferenças entre validade interna e validade externa. Carmo e Ferreira (1998), acrescentam que a validade interna pode ser assegurada utilizando o recurso da triangulação e que “a fiabilidade pode ser garantida sobretudo através de uma descrição pormenorizada e rigorosa da forma como o estudo foi realizado” (idem: 218).

Perante estes critérios de validade parece-me que, na sua generalidade, não existe validade externa na I-A e muito dificilmente se conseguirá provar a sua validade interna. Neste último caso, no que diz respeito à credibilidade, para se poderem colmatar as eventuais desconfianças terá de passar, na minha opinião, pela acreditação do investigador/profissional por parte da comunidade académica/científica (ver http://revistaensinareaprender.blogspot.com/2011/06/ac-investigacao-acao-natureza-e.html ).


Referências bibliográficas
·         Bell, J. (1997), em Como Realizar um Projecto de Investigação. Lisboa: Gradiva
·         Carmo, H., & Ferreira, M., (1998) Metodologia da Investigação - Guia para Auto-aprendizagem. Lisboa: Universidade Aberta
·         Coutinho, C. P. (2008). A qualidade da investigação educativa de natureza qualitativa: questões relativas à fidelidade e validade. Educação Unisinos 12 (1): pp. 5-15, janeiro/abril.
·         Lopes, A. (2003). Estudo Acompanhado: Espaço de Inovação e Reconstrução – Utopia ou Realidade. Porto: Universidade do Porto, (dissert. de mestrado policop).
·         Máximo-Esteves, L. (2008). Visão Panorâmica da Investigação-Acção. Porto: Porto Editora


Luís Ricardo (2011)

(AO) Avaliação de Desempenho Docente e as aulas assistidas

Uma reflexão sobre a (in)utilidade das aulas assistidas como ferramenta da avaliação de desempenho docente

Acabei de chegar do Seminário Práticas de Avaliação de Desempenho Docente (ADD) na Universidade de Braga. Todos os oradores que se pronunciaram sobre as aulas assistidas como ferramenta de ADD, inclusive os professores avaliados que estavam na plateia (alguns destes denunciando alguma desconfiança) foram de opinião (sublinho: opinião) que são úteis, mas sempre iam dizendo que “duas aulas assistidas não servem para fazer nada” (Antonieta Mamede, esta colega com 40 anos de experiência docente como a própria afirmou – deve ter contabilizado o tempo de catequista) ou que “existem professores que usam pela primeira vez as TIC nas aulas assistidas” (Álvaro Almeida Santos). Ou seja, eles próprios, defensores das aulas assistidas, apontavam as razões da inutilidade dessa forma de avaliação. Se duas aulas assistidas não servem para nada, quantas serão necessárias? Dez? Sessenta? Um professor no início da carreira não aguentaria a pressão e um professor no topo não se sujeitaria. E se os professores usam estratégias nas aulas assistidas que normalmente não usam em aulas normais as primeiras têm de ser vistas como mais teatrais (ver http://revistaensinareaprender.blogspot.com/2008/02/ao-aulas-assistidas-est-aberta-poca-do.html ). Os professores se souberem que vão ser avaliados preparam-se antes, ensaiam, encenam, avisam os alunos,… enfim, teatralizam. Uma colega da plateia ainda sugeriu que as aulas assistidas deveriam acontecer sem qualquer aviso prévio. Ora, se acontecesse comigo, rezaria, apesar de não ser crente, para que essa observação calhasse numa das minhas turmas bem comportadas, rezaria para que calhasse numa das matérias em que consigo motivar melhor os alunos, rezaria para que todos os alunos nesse dia tivessem o material necessário para essa aula, rezaria que não calhasse nas aulas dos meus alunos CEF, rezaria, rezaria,… Parece-me assim que as aulas assistidas ou são teatrais ou estão dependentes do valha-me deus.
Falou-se ainda da legitimação dos avaliadores. Pois! Quem nos avaliaria? Numa aula duas componentes são colocadas em jogo: a científica e a pedagógica. O avaliado reconhecerá competências ao avaliador nestes dois domínios? Para este ser aceite sem contestação as suas habilitações académicas teriam de ser superiores em cada um desses domínios e se fossem iguais o avaliador teria de ter mais experiência. Estas seriam, na minha opinião, as condições necessárias para se poder avançar para o passo seguinte: a aceitação do avaliador por parte do avaliado. Podem anda existir conflitos relacionais, ou até excesso de afetividade, não notados pelo diretor.

Os professores acabam por aceitar um determinado avaliador porque se sentem obrigados a aceitá-lo. Nos bastidores das escolas parece-me claramente pairar a imagem que os professores não concordam com a observação das aulas. Alguns pedem-nas mas, provavelmente, os motivos prendem-se com um certo sentimento de fidelidade normativa receando ficar prejudicados na progressão, ou mesmo, até, devido ao “medo” e à “tensão” que, como disse a Maria Martins, existe nos professores.
O modelo de ADD, na minha opinião, deve ser sempre negociado com os professores através de um contrato de avaliação elaborado em conjunto pelo avaliado e avaliador. Este deve ter mais habilitações académicas que o avaliado e se as tiver iguais deve ter, obrigatoriamente, mais tempo de serviço (podendo considerar-se como mais experiente). Deve ser aceite pelo avaliado mas com a respetiva ratificação do diretor devendo este analisar eventuais casos de excesso de proximidade ou o contrário. Nesse contrato não teriam lugar os objetivos referentes às taxas de abandono escolar e outras do género pois os alunos, e todas as suas características humanas/sociais criadas com a nova turma no início, só serão realmente conhecidas no final do ano fazendo com que os pretensos objetivos definitivos apontados no início do ano não passem de mais uma incompreensão.

Lembrei-me de um modelo de ADD que poderia ser aplicado aos professores: usar o mesmo que é usado nos professores do ensino superior (não há polémica). Quero salientar com esta ironia uma outra incompreensão: não me parece que o mesmo modelo sirva eficazmente e simultaneamente os educadores de infância, ou mesmo os professores do 1º ciclo/2ºciclo, e os professores do ensino secundário.

Luís Ricardo (2011)

(AC) Investigação-Ação (I-A) vs Estudo de Caso

Uma reflexão sobre as diferenças e semelhanças entre I-A e um Estudo de Caso

Simões (1990) refere que “na maior parte dos casos, a I.-A. assumirá a forma de estudo de caso” (idem:47). Como existem outras referências semelhantes por parte de vários autores denunciando que poderá existir algum conflito entre os dois conceitos, levou-me a apresentar esta reflexão.
Considerando a I-A como um conjunto de procedimentos para dar resposta a um problema social, real e específico vivido/sentido pelo investigador/profissional, colocando-se em ação os resultados duma investigação no sentido de melhorar a sua prática num processo cíclico, refletivo e crítico onde o grupo alvo tem de assumir a aceitação das mudanças e envolver-se ativamente em todo o processo (lá estou eu a repetir esta definição), e um estudo de caso como uma investigação particular, descritiva, heurística, indutiva… ou  como um método que “consiste na observação detalhada de um contexto (...) ou de um acontecimento específico” (Merriam, 1988, cit. Bogdan & Biklen, 1994:89) procurarei aqui resumir as que me parecem ser as suas diferenças/semelhanças principais.

Tab. 1 – I-A vs estudo de caso
I-A
Estudo de caso


Levado a cabo por um profissional/ investigador (ou por um conjunto de investigadores/profissionais)

Não necessariamente, mas nada o impede.

O grupo alvo tem de ter conhecimento do processo e participar nas actividades aceitando as mudanças.

Não necessariamente, mas nada o impede.
Implica um processo cíclico numa procura de melhorar constantemente a prática do profissional/investigador aplicando-se os resultados no grupo/alvo investigado.

O estudo conclui-se no final de uma investigação, encerrando-se o ciclo. Nada garante que os resultados da investigação sejam aplicados (muitas teses de doutoramento e mestrado nunca saíram da prateleira – como sabemos).

Debruça-se sobre um problema social.

Não necessariamente, mas nada o impede.


Não é generalizável (não existe validade externa)

Não é generalizável tal como a I-A.

Não se vislumbram meios eficazes para provar a sua validade interna.

Tem validade interna.
Referências bibliográficas
·         Bogdan, R., Biklen, S. (1994). Investigação Qualitativa em Educação. Porto: Porto Editora
·         Simões, A. (1990). A Investigação-Acção: Natureza e Validade. Coimbra: Universidade de Coimbra, Revista Português de Pedagogia, Ano XXIV, pp. 39-51


Luís Ricardo (2011)